terça-feira, dezembro 11, 2007

Segredo


Da tua boca cerro as palavras
Com as sete chaves do amor interdito.

segunda-feira, novembro 26, 2007

Cinco Sentidos



Vendar-te os olhos
Verdes-de-perigo
E acender-te o tacto

Sugar-te o beijo
Maçã-desejo
A deglutir

Aspirar
O acre aroma
Do teu púbis-pão

Ouvir
Até ao limite
O sussurro-grito da paixão

quarta-feira, novembro 21, 2007

Maré Alta


Lágrima que se derrama
A grafia submerge o poema

segunda-feira, novembro 19, 2007

Projecto

Uma linha estendida ao comprido na caneta recta
Estatelada entre o projecto e a execução
Negra de vontade não angulou arcos
Nem torneou contornos
Nem tão pouco se demarcou do fundo

Ficou uma planta sem alçado
Desorientada no papel

sábado, novembro 17, 2007

Impaciência




Cresce para o horizonte
A minha urgência de ser
O meu corpo campo maduro
Inseguro, ondulante
O meu querer premente
Grafia sangue
Poeira impaciente

Ao rubro


Há lágrimas que se derramam nos olhos
Que escondemos e que não.

Há beijos que se soltam nas bocas
Nas que beijamos e nas que não.

Há segredos que se movem nas palavras
Nas que calamos e nas que não.

Há revoltas que nos acendem o peito
As que gritamos ou não.

quinta-feira, novembro 15, 2007

Monitor

O rosto não se desenha
No cheiro pressentido
Na ausência que nunca foi
No teclado do silêncio

domingo, novembro 11, 2007

Folhas Caídas


No mais cálido Outono
Na noite mais transparente

Sobre o rio derramadas
Se tocaram seivas adormecidas

Não estranhámos o sol
Nem os rostos nunca trilhados

Nossos beijos falaram
A língua natural dos seres

No mais cálido Outono
Na noite mais transparente

quinta-feira, novembro 08, 2007

Foz


Eis aqui a confluência dos rios
Onde os sonhos se unem
Revoltos
Eis aqui a fusão dos sentidos
Onde os corpos se fundem
Incertos

sábado, novembro 03, 2007

Febre

Demora-se o homem
Com que me deito
Assim o espero
De águas percorrida
Nascimento recorrente
No meu leito

sexta-feira, novembro 02, 2007


O homem saíu com o cão pela trela.
A sua liberdade estendia-se ao comprido na estrada.

Preso ao cão e ao passeio,o seu atrevimento em sair não dera em nada.
Trela metáfora na mão
voltou para casa.

segunda-feira, outubro 15, 2007


No lento rumor do teu hálito
Apenas pressentido
Esvoaça o pássaro liberto
da matéria dos sonhos
quimeras azuis sonhando

quarta-feira, outubro 10, 2007

Discurso de água

Efémera

Pode ser a vida

Discurso de um rio

Nem sempre transparente.



As pontes

São nossos corpos

Fundidos em arco

Sobre a corrente.

sábado, outubro 06, 2007

Marca


As mãos crispam-se
Plenas de raivas não-ditas
Amordaçadas pela conveniência
Os dedos registam
Nas palavras escritas
A dor da tua ausência
Vemos tudo o que desejamos ser
No vislumbre do sonhar
Trevo seco entre as folhas do livro que não leste
Assim se destaca a permanência
Do meu olhar nas letras não escritas
Porque não as soubeste escrever

quinta-feira, setembro 27, 2007

Final


Não voltaremos a roçar nos lábios
O beijo insuspeito
Que a tarde deixava em brasa
Ainda antes do crepúsculo

Não voltaremos a olhar nos olhos
O dizer-te amor
Que o tempo adivinhou
Na medida que não conteve

Não voltaremos a sonhar
O sono completo
Que os amantes conhecem
Entrelaçados de branco

quinta-feira, setembro 20, 2007


musgo

escorrendo água em regatos

assim os meus olhos

choram a ausência

da paixão que eu inventei

mas não escrevi

quarta-feira, setembro 05, 2007

Seminova


A noite fez surgir sóis nos teus dedos lunares
E de nocturna se violentou em apolínea:

- a tua língua incendiando
Brasas expectantes
Das sendas abertas pelo teus dedos
Sulcando os meus seios:

-desejos escaldantes
Anteprelúdios de galáxia

terça-feira, setembro 04, 2007

Poema portátil

O monitor na frente dos olhos
O poema urgente na ponta dos dedos
A raiva que não desvenda segredos
O mar que esconde escolhos
De nada adianta papel ou monitor
Teclado ou folha
Se a alma se não dispõe a denunciar-se
Livre na sua escolha
De desnudar-se
Em dor ou amor

sábado, agosto 25, 2007

Ribeira do Porto


Depois de o calor ofegar o corpo
E alongar os gatos nos beirais
Chove na Ribeira do Porto
A água escorre do Cubo
Cinzento escuro reflexo
Desce pelos rostos e cabelos
E faz ecoar as gaivotas
E o rio atravessa a ponte
Espelhando uma nuvem ou outra

Milheirais


De dedos se enrolam os cabelos
Moldura do rosto que se desenha
De verde se trocam olhares
Campos de milho suspirando pela água
Que corre nos sulcos molhados dos pés

terça-feira, julho 24, 2007


Em acordes
fitas de seda
E cetins coleantes
O corpo toca prelúdios

Ofereço-to enquanto poema
Piano de cauda
Para que lhe decifres os contornos
Espraiados no leito
Em que te acolho

segunda-feira, julho 09, 2007

Pilhagem


Miro-te
Da vertigem
Ave rapina
Sinuo-te o trajecto

A pique
Sobre ti
Implacável
Na nitidez da minha fome

Farejo no desfiladeiro
O cheiro acre e crespo
Das tuas pernas em repouso
Incautas e crédulas
Na antecipação predatória
Da pilhagem

quarta-feira, julho 04, 2007

Jantar a dois

Que me tome o homem
Que me olhe nos olhos
E mos cerre de prazer
Que me deite e me acenda
Com golpes de brasa
Na lareira do recolher

Que me derrube o homem
Que saiba que sou de comer
E o faça sem pudor
Passo a passo
Com dedos ou talher
Na toalha dum abraço

Frutos Proibidos


Cerejas
Vertendo dedos de chocolate
Avidamente procuram
O cerne que as gera
Languidamente
Se demoram
Na expectativa.

Rubras
Túrgidas
Como as frutas húmidas
Que se abrem
Ao gume da faca
Violenta e eficaz
Que, finalmente, as devora.

terça-feira, junho 12, 2007

Cumplicidade


O encontro
Acontece nos olhos que se procuram
E se reconhecem intemporais e pares
Eles sabem
Como os amantes incompreendidos
Que basta um cigarro no bolso
para sempre se conjugarem

De novo...a esperança


Sempre que um sonho cresce
Abundante nos olhos
E se derrama por dentro
Como um fruto intenso
Prestes a explodir
A solidão irrompe
Excessiva na sua irónica sombra

Trópico


a atmosfera imóvel
condensa o tempo húmido
as pálpebras ensaiam um movimento tépido
os dedos imóveis na sombra
e os lábios entreabertos transpiram a sede
do sal suor que se deseja

sexta-feira, maio 25, 2007

Música

Choque de azul
Contra o suor da pele
Na noite desacordados
Devassados
Contratempo com tempo
De acordes combinados

Um dedo
No segredo
-esboço de beijo;

Um poro
Aberto na pele
-pescoço ensejo;

Um fruto fluido
Escorrendo
- boca desejo.

segunda-feira, maio 21, 2007

Que falta de texto
na ponta dos dedos!
Nem sequer um pretexto
para inventar uma paixão súbita
que rasgue o ar
na necessidade absoluta de desvendar segredos!

domingo, maio 20, 2007

Chuva


A minha vida chora

em cada pingo de chuva

na natureza

gota a gota

uma tristeza invade a minha alma

como se o dia cinzento

se entornasse sobre a terra


a minha alma é húmida

de tanta água vertida

domingo, abril 22, 2007

Apeadeiro


Inadvertidamente, sem pedir licença

Num dia de lúcido de projectos
Alguém separou as carruagens
Do meu comboio:
Numa ficou a minha bagagem;
na outra o meu eu conhecido.
(Não aquele que os outros pensam
que percebem
mas o que preenche o meu leito sem sono
descanso ou companhia).

Optei por agir correndo
buscar a bagagem
ao menos é concreta, palpável
e contém coisas úteis para a viagem.
Sonho a presença de alguém
com uma persistência ignóbil
como se o ser se definisse
em função de outrem

No desalento emaranhado
das minhas emoções
perdi-me em tons de crepúsculos
onde sofro a dor
como um soluço a reprimir
na verdade que consegui alcançar

Posso despir-me
Para ti
Se quiseres
Posso dizer amor
Se me apetecer
Posso explicar-me
Se conseguir
Posso até ser
A tua mulher
Se souber

Não me desnudo
Existo
Não falo
Calo
Não me analiso
Vivo
Não há posse
De mim
Apenas presença

domingo, abril 01, 2007

http://silencio.weblog.com.pt/images/eyes/VincentVanGogh-TheStarryNight(1889).GIF



REALIZAÇÃO



Na alvorada em que me preencho


Surgem os ecos dos sonhos que não desejei.
De dia, o meu acto de ser agrilhoa-se numa nulidade absurda


Como se, impessoal e muda,


Não quisesse acontecer.
À noite concretizo-me


Prenhe no meu estado de glória


Sendo tudo e nada sendo


Coroada da majestade do sem céu


Meu reino sem ninguém


Desdém de crepúsculos

Ave


Amo nas tardes mornas de Verão

O doce rumor das asas acoitadas

Na frescura dos ramos


Amo e contemplo

Sentindo que o morno refresca em mim

O doce marulho dos abraços

sexta-feira, março 23, 2007

Florbela Espanca in memoriam

Quero reter-te assim imaculado
Longe da sede dos meus braços,
Para que não sulques com os teus traços
Meu trilho ávido, almiscarado.

Por uma vez, fora do meu alcance,
Entre sóis, na face e risos de cor
Para que nos meus olhos com ardor,
Não vislumbres tristeza, de relance,

Porque em meu gesto é natural
Tocar o sol e o mar e o vento e o chão:
Melancolia louca, impessoal.

Em todo o fogo da minha paixão,
Quero tornar-me contigo imortal,
Ai, no leito da minha solidão!

E se, de repente,

O meu corpo se soltasse

por entre o verde da colcha

em marés sucessivas

e me desprendesse

lentamente

no marulhar do oceano?

CANTAR DE AMIGO

Meu amigo, ai, meu amado
Vem, ao romper da aurora
Matar-me de amor
Como um trovador
De outrora

Meu amigo, ai, meu amado
Depois seduz-me contigo
De um modo antigo
Fremente
Apaixonado

Meu amigo, ai, meu amado
Faz-me amor
Num leito qualquer
À hora de alva
Quando os pássaros se acordam

Meu amigo, ai, meu amado
Se assim nos aprouver
Mordamos o calor
Da boca nas palavras
Que se formam

segunda-feira, março 19, 2007

Tenerife


Brumas

Envolvem o pico distante

Indistintas vozes

Ecos do passado

Reinvenção de um instante

Indiferenciados

Pedaços de mágoa
Porque me pedes
A razão das coisas
quando ignoro
o porquê de existir?

Porque me pedes
para te ouvir
quando as sombras
não invadem o momento?

Porque me pedes
referências cruas?
Que tormento...

Não gosto de escrever
Em papel pautado
As páginas do meu ser.

Num crepúsculo lunar

Irradiando seus sóis

O poema vem





Repentino

Sopro

Urgente



O poema vem

Irradiando seus sóis

Num crepúsculo lunar


Quero-te ausente e sereno

Tudo sonhei na vida
sem nunca ter desejado
tempo demais

Fica longe
onde os meus dedos
Não interrompam teu corpo

Absurda

É a hora

Quando

Presos no tempo

A aguardamos

domingo, março 11, 2007

A verdade das rosas


Quisera outrora no papel

de alguma forma vagamente lírica

com rosas dizer amor


o homem que amei

de alguma forma ligeiramente sentimental

não era de rosas autênticas

nem mesmo daquelas de fugazes odores

que se compram belas e logo se desfazem

ou se oferecem iconicamente

nas janelas dos computadores

Desde então suspendi a pena

para que o artificial não me enchesse do tédio

medianamente médio

das coisas vulgares

sexta-feira, março 09, 2007

Regresso


Com o teu beijo
Reacende
A chama
Aquela que tu sabes
Estar sempre na asa da cinza
Purpúrea

Se eu dia eu voltar
Na minha loucura
Natural
Aquela que tu sabes
Saber a mim
Acolhe-me com
O fogo dos calores
Adormecidos
Não esquecidos

O vidro na vela
O espelho da tela


O reflexo rubro
Da ponta dos dedos
Segredos
Líquidos

A imagem do copo
No reflexo da tela


A voz do sangue
O seio que acalenta
Fremente de ter
O dia de hoje
Futuro a não ser

Mel doce de canela
A noz acesa na vela

A cor que fascina
O universo sentido
Ilumina

O reflexo da chama
Intensa da vela
No calor da tela

Delíquios suspensos
No limiar do vinho
No esplendor da cor


A imagem do copo
No reflexo da vela
A mulher nua
Violada na tela

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Fundação


O telhado da casa
Mantém-se intacto
Como se cada pedra rolada
Não o tivesse abalado
Ou estivesse fundeado
Na cave

Como navio ancorado
Assim me mantenho
Erecta na vida
Como se cada sonho desfeito
Estivesse ainda preso
Da minha vontade

Barco


Enlouquecida
Presságios de xaile
Nas areias da praia solta
Embatem-me nos dedos
De frio transida
Choro o meu fado
Do homem que não volta
Com seus segredos
Às ondas da minha saia
Sossegar meus medos

terça-feira, janeiro 09, 2007

Saudades do Futuro


Repetidamente
Se amaram com candura
E pecado
Nos odores libertados

Os dedos dele feitos gatos
Dela fazendo a cama
Roçaram o corpo
De joelhos unidos
Irradiando desejo
Atearam a exaltação
Dos sentidos plenos
De ensaio conseguido

Miramar


Traçados os recortes
Nevoentos na sombra
Caminhantes
Bailado de formas
De sons e cheiros
De trilhos percorridos
Isentos de normas

Descanso


A minha pena
Repousa no teu corpo
-descanso das palavras
Outras linguagens
Se libertam
Na melodia dos dedos