Quarta-feira, Abril 01, 2009


Antes de o teu silêncio falar comigo
Tinha esgotado todas as palavras
Violado até à exaustão todos os sons
Estava surda

Antes de as tuas pernas trilharem o meu corpo
Tinha percorrido todas as veredas
Escalado todos os montes
Estava perdida

Antes de o teu sorriso inundar meus cabelos
Tinha visitado todas as galáxias
Buscado astros apagados
Estava cega

Antes de teus olhos cruzarem nos meus
Tinha pintado todas as telas
Misturado todas as cores
Estava branca

Antes de te abrir a porta

estava sempre de saída


Sábado, Fevereiro 07, 2009

Primordial


Íntegro
O verde leopardo dos teus olhos
Na moldura dos caracóis negros
Em cascata
Diz-me que sim

Quarta-feira, Janeiro 21, 2009

Impotência


Que canto eu ,tempo de roxo
De incerteza
Imersa na minha escrita de palavras de dentro
Abafadas no silêncio do grito
Que me vibra e morde
Mas não sai?

Que canto eu , tempo negro
De luto
Encerrada nas cadeias que me prendem
Palavras de dito por não dito
Que me corroem
A transparência?

Que canto é o meu, tempo opaco
De dor
Calada nos olhos abertos ao mundo
Violência gravada nos espelhos
Que me embarga a voz
Verde de liberdade?

Quinta-feira, Novembro 20, 2008


A minha língua serpente
Em pele dócil de seio erguido
No mamilo redondo em rosa
Ávida dos beijos da tua boca ardente
Deseja entrar em ti borboleta

-Aromas libertos de cheirar
- Sabores intensos de beber

Sexta-feira, Novembro 07, 2008


No início dos teus olhos

havia um rumo directo à boca
Uma vontade de ver para além do beijo
Um assomo de ser para além da carne


No início do teu corpo

havia um traço directo ao cerne
Uma fome de tocar para além da pele
Um pasmo de ler para além do desejo

Segunda-feira, Outubro 06, 2008

OUTONO


Outonal
solta-se o desejo de ti
em laranja, amarelo, castanho
Rumorejam águas,
na relva que rescende ao musgo com que te entrego a boca



Numa lua vermelha de tempo sonolento
Folhas são dedos, gotas de suor
Os meus cabelos de sol embriagando o teu corpo
O beijo que sobe nas tuas coxas maresia


Os meus olhos expandem-se na metáfora verde do nosso segredo

Sexta-feira, Setembro 05, 2008

à sempre muy nobre e invicta...


À custa de ser una perdi-me
Nesta cidade que em bairros me divide
Particularizei-me nas calçadas, ribeiras e cumes
Tirei fotografias às palavras no grito das gaivotas
Chamei nomes aos mamarrachos dos cais
Fui turista do granito dos sonhos fósseis
E criadora de ilusões efémeras
Amei aqueles a quem a vida passou ao lado
Arrumadores, mendigos, putas, crianças de alma prematuramente desnudada
Cantei o fado e os blues da alma lusitana
Pendurei-me no eléctrico da Foz e fui ver palmeiras
Mas já não se namora: só se pesca.
E passeiam-se as tainhas brasileiras de braço dado.