segunda-feira, junho 23, 2008

Tatuagem


Nestes lençóis
Onde puros fomos voz e silêncio
Fica o meu ventre de linho
Útero aberto
Na madrugada sem dobras
Em que o tempo escorre e não cristaliza

Veludos, nácares e cetins
Tinta roxa
Pele a pele
Corpo a corpo

Alga




Olho em frente e reconheço-me
O espelho és tu
Que me devolve o olhar
Verde de tão verde alga
A alagar
Sem naufragar

Toilette


Peça a peça escolho
O teu desejo de mim
Um busto vermelho
Rendas negras de pecado
Na meia que seduz
Na contraluz de um beijo
Escarlate

Sobre a mesa


Manjares divinos
Doces de ovos, chantilly
Morangos em cascatas de champanhe
Melões abertos em ventre
Damascos amarelo-mel
Uvas vibrantes – fome de serem cacho
E não bago
Unidade sem sentido
No amor que faço
Contigo

terça-feira, abril 29, 2008

A preto e branco

A realidade estava nua como a mulher que a sonhava.

Sem alma para vestir,
Vontade de pincelar-se
de azul-céu,
laranja-fogo
ou verde-mar.

Nada.

Reentrou no sonho
Do saber-se nua, dormindo
Na realidade crua de estar sem maquilhagem.

sábado, março 29, 2008

A pedra


Ignoro se esta pedra existe
Limpa nas casas
Promíscua nos passeios
na essência de ser dura, imortal e sólida
fóssil de sabedoria
desafio aos deuses na sua humanidade granítica de silêncios gravados
de palavras não ditas, ancestrais

- desejo branco gravado no tempo.

sábado, março 15, 2008

Amor revisitado


Com carne e músculo
Tendões e nervos
Fiz instintivo o amor
Que por demais conhecido
Me apeteceu fazer

Com lágrimas e risos
Sussurros e devaneios
Fiz instintivo o amor
Que por demais sentido
Me apeteceu fazer

Com musgos e cetins
Veludos e pedras caras
Emoldurei espontâneo o amor
Que por demais sonhado
Me apeteceu fazer

terça-feira, março 11, 2008

Escrita q. b.


Cruel e obsceno o espaço da escrita
Na vertigem da folha gume
Reclama palavras novas
Metáforas inovadoras
Amores inventados de propósito
Na sinceridade falsa do cliente certo
Aquele que sempre nos lê
E que aplaude o esperado
poema-feito-de-encomenda

O fazedor de poemas meteu a viola no saco

terça-feira, janeiro 01, 2008

Ribeira do Porto II




Os olhos deslumbrados de um gaiato
Que mergulha ponte abaixo fundo no rio
Faz voarem no meu nome as gaivotas

-recados brancos como lágrimas
Vertidas nas pedras gastas do burgo


No cais-chegada-partida de todos os rios
A voz escorre pelos granitos
Fado e Zappa e o cheiro das castanhas
No pêlo dos gatos das goteiras.

Primeiro poema de 2008


O meu pensamento à beira Douro transborda cardumes
Na Praça do Cubo entranço as pernas e deixo nascer o desejo
De ser não eu, de alma enroscada no rio,
Mas outra poetisa ruiva e louca
Desgrenhando versos no azul fluido das margens
Comendo azeitonas verdes com a cor do olhar
Que dirige aos homens que passam
Vagabundos como ela de países e almas
Desancorados de promessas ou amores contingentes

terça-feira, dezembro 11, 2007

Segredo


Da tua boca cerro as palavras
Com as sete chaves do amor interdito.

segunda-feira, novembro 26, 2007

Cinco Sentidos



Vendar-te os olhos
Verdes-de-perigo
E acender-te o tacto

Sugar-te o beijo
Maçã-desejo
A deglutir

Aspirar
O acre aroma
Do teu púbis-pão

Ouvir
Até ao limite
O sussurro-grito da paixão

quarta-feira, novembro 21, 2007

Maré Alta


Lágrima que se derrama
A grafia submerge o poema

segunda-feira, novembro 19, 2007

Projecto

Uma linha estendida ao comprido na caneta recta
Estatelada entre o projecto e a execução
Negra de vontade não angulou arcos
Nem torneou contornos
Nem tão pouco se demarcou do fundo

Ficou uma planta sem alçado
Desorientada no papel

sábado, novembro 17, 2007

Impaciência




Cresce para o horizonte
A minha urgência de ser
O meu corpo campo maduro
Inseguro, ondulante
O meu querer premente
Grafia sangue
Poeira impaciente

Ao rubro


Há lágrimas que se derramam nos olhos
Que escondemos e que não.

Há beijos que se soltam nas bocas
Nas que beijamos e nas que não.

Há segredos que se movem nas palavras
Nas que calamos e nas que não.

Há revoltas que nos acendem o peito
As que gritamos ou não.

quinta-feira, novembro 15, 2007

Monitor

O rosto não se desenha
No cheiro pressentido
Na ausência que nunca foi
No teclado do silêncio

domingo, novembro 11, 2007

Folhas Caídas


No mais cálido Outono
Na noite mais transparente

Sobre o rio derramadas
Se tocaram seivas adormecidas

Não estranhámos o sol
Nem os rostos nunca trilhados

Nossos beijos falaram
A língua natural dos seres

No mais cálido Outono
Na noite mais transparente

quinta-feira, novembro 08, 2007

Foz


Eis aqui a confluência dos rios
Onde os sonhos se unem
Revoltos
Eis aqui a fusão dos sentidos
Onde os corpos se fundem
Incertos

sábado, novembro 03, 2007

Febre

Demora-se o homem
Com que me deito
Assim o espero
De águas percorrida
Nascimento recorrente
No meu leito