sábado, agosto 25, 2007

Ribeira do Porto


Depois de o calor ofegar o corpo
E alongar os gatos nos beirais
Chove na Ribeira do Porto
A água escorre do Cubo
Cinzento escuro reflexo
Desce pelos rostos e cabelos
E faz ecoar as gaivotas
E o rio atravessa a ponte
Espelhando uma nuvem ou outra

Milheirais


De dedos se enrolam os cabelos
Moldura do rosto que se desenha
De verde se trocam olhares
Campos de milho suspirando pela água
Que corre nos sulcos molhados dos pés

terça-feira, julho 24, 2007


Em acordes
fitas de seda
E cetins coleantes
O corpo toca prelúdios

Ofereço-to enquanto poema
Piano de cauda
Para que lhe decifres os contornos
Espraiados no leito
Em que te acolho

segunda-feira, julho 09, 2007

Pilhagem


Miro-te
Da vertigem
Ave rapina
Sinuo-te o trajecto

A pique
Sobre ti
Implacável
Na nitidez da minha fome

Farejo no desfiladeiro
O cheiro acre e crespo
Das tuas pernas em repouso
Incautas e crédulas
Na antecipação predatória
Da pilhagem

quarta-feira, julho 04, 2007

Jantar a dois

Que me tome o homem
Que me olhe nos olhos
E mos cerre de prazer
Que me deite e me acenda
Com golpes de brasa
Na lareira do recolher

Que me derrube o homem
Que saiba que sou de comer
E o faça sem pudor
Passo a passo
Com dedos ou talher
Na toalha dum abraço

Frutos Proibidos


Cerejas
Vertendo dedos de chocolate
Avidamente procuram
O cerne que as gera
Languidamente
Se demoram
Na expectativa.

Rubras
Túrgidas
Como as frutas húmidas
Que se abrem
Ao gume da faca
Violenta e eficaz
Que, finalmente, as devora.

terça-feira, junho 12, 2007

Cumplicidade


O encontro
Acontece nos olhos que se procuram
E se reconhecem intemporais e pares
Eles sabem
Como os amantes incompreendidos
Que basta um cigarro no bolso
para sempre se conjugarem

De novo...a esperança


Sempre que um sonho cresce
Abundante nos olhos
E se derrama por dentro
Como um fruto intenso
Prestes a explodir
A solidão irrompe
Excessiva na sua irónica sombra

Trópico


a atmosfera imóvel
condensa o tempo húmido
as pálpebras ensaiam um movimento tépido
os dedos imóveis na sombra
e os lábios entreabertos transpiram a sede
do sal suor que se deseja

sexta-feira, maio 25, 2007

Música

Choque de azul
Contra o suor da pele
Na noite desacordados
Devassados
Contratempo com tempo
De acordes combinados

Um dedo
No segredo
-esboço de beijo;

Um poro
Aberto na pele
-pescoço ensejo;

Um fruto fluido
Escorrendo
- boca desejo.

segunda-feira, maio 21, 2007

Que falta de texto
na ponta dos dedos!
Nem sequer um pretexto
para inventar uma paixão súbita
que rasgue o ar
na necessidade absoluta de desvendar segredos!

domingo, maio 20, 2007

Chuva


A minha vida chora

em cada pingo de chuva

na natureza

gota a gota

uma tristeza invade a minha alma

como se o dia cinzento

se entornasse sobre a terra


a minha alma é húmida

de tanta água vertida

domingo, abril 22, 2007

Apeadeiro


Inadvertidamente, sem pedir licença

Num dia de lúcido de projectos
Alguém separou as carruagens
Do meu comboio:
Numa ficou a minha bagagem;
na outra o meu eu conhecido.
(Não aquele que os outros pensam
que percebem
mas o que preenche o meu leito sem sono
descanso ou companhia).

Optei por agir correndo
buscar a bagagem
ao menos é concreta, palpável
e contém coisas úteis para a viagem.
Sonho a presença de alguém
com uma persistência ignóbil
como se o ser se definisse
em função de outrem

No desalento emaranhado
das minhas emoções
perdi-me em tons de crepúsculos
onde sofro a dor
como um soluço a reprimir
na verdade que consegui alcançar

Posso despir-me
Para ti
Se quiseres
Posso dizer amor
Se me apetecer
Posso explicar-me
Se conseguir
Posso até ser
A tua mulher
Se souber

Não me desnudo
Existo
Não falo
Calo
Não me analiso
Vivo
Não há posse
De mim
Apenas presença

domingo, abril 01, 2007

http://silencio.weblog.com.pt/images/eyes/VincentVanGogh-TheStarryNight(1889).GIF



REALIZAÇÃO



Na alvorada em que me preencho


Surgem os ecos dos sonhos que não desejei.
De dia, o meu acto de ser agrilhoa-se numa nulidade absurda


Como se, impessoal e muda,


Não quisesse acontecer.
À noite concretizo-me


Prenhe no meu estado de glória


Sendo tudo e nada sendo


Coroada da majestade do sem céu


Meu reino sem ninguém


Desdém de crepúsculos

Ave


Amo nas tardes mornas de Verão

O doce rumor das asas acoitadas

Na frescura dos ramos


Amo e contemplo

Sentindo que o morno refresca em mim

O doce marulho dos abraços

sexta-feira, março 23, 2007

Florbela Espanca in memoriam

Quero reter-te assim imaculado
Longe da sede dos meus braços,
Para que não sulques com os teus traços
Meu trilho ávido, almiscarado.

Por uma vez, fora do meu alcance,
Entre sóis, na face e risos de cor
Para que nos meus olhos com ardor,
Não vislumbres tristeza, de relance,

Porque em meu gesto é natural
Tocar o sol e o mar e o vento e o chão:
Melancolia louca, impessoal.

Em todo o fogo da minha paixão,
Quero tornar-me contigo imortal,
Ai, no leito da minha solidão!

E se, de repente,

O meu corpo se soltasse

por entre o verde da colcha

em marés sucessivas

e me desprendesse

lentamente

no marulhar do oceano?

CANTAR DE AMIGO

Meu amigo, ai, meu amado
Vem, ao romper da aurora
Matar-me de amor
Como um trovador
De outrora

Meu amigo, ai, meu amado
Depois seduz-me contigo
De um modo antigo
Fremente
Apaixonado

Meu amigo, ai, meu amado
Faz-me amor
Num leito qualquer
À hora de alva
Quando os pássaros se acordam

Meu amigo, ai, meu amado
Se assim nos aprouver
Mordamos o calor
Da boca nas palavras
Que se formam

segunda-feira, março 19, 2007

Tenerife


Brumas

Envolvem o pico distante

Indistintas vozes

Ecos do passado

Reinvenção de um instante

Indiferenciados

Pedaços de mágoa
Porque me pedes
A razão das coisas
quando ignoro
o porquê de existir?

Porque me pedes
para te ouvir
quando as sombras
não invadem o momento?

Porque me pedes
referências cruas?
Que tormento...

Não gosto de escrever
Em papel pautado
As páginas do meu ser.

Num crepúsculo lunar

Irradiando seus sóis

O poema vem





Repentino

Sopro

Urgente



O poema vem

Irradiando seus sóis

Num crepúsculo lunar


Quero-te ausente e sereno

Tudo sonhei na vida
sem nunca ter desejado
tempo demais

Fica longe
onde os meus dedos
Não interrompam teu corpo

Absurda

É a hora

Quando

Presos no tempo

A aguardamos

domingo, março 11, 2007

A verdade das rosas


Quisera outrora no papel

de alguma forma vagamente lírica

com rosas dizer amor


o homem que amei

de alguma forma ligeiramente sentimental

não era de rosas autênticas

nem mesmo daquelas de fugazes odores

que se compram belas e logo se desfazem

ou se oferecem iconicamente

nas janelas dos computadores

Desde então suspendi a pena

para que o artificial não me enchesse do tédio

medianamente médio

das coisas vulgares

sexta-feira, março 09, 2007

Regresso


Com o teu beijo
Reacende
A chama
Aquela que tu sabes
Estar sempre na asa da cinza
Purpúrea

Se eu dia eu voltar
Na minha loucura
Natural
Aquela que tu sabes
Saber a mim
Acolhe-me com
O fogo dos calores
Adormecidos
Não esquecidos

O vidro na vela
O espelho da tela


O reflexo rubro
Da ponta dos dedos
Segredos
Líquidos

A imagem do copo
No reflexo da tela


A voz do sangue
O seio que acalenta
Fremente de ter
O dia de hoje
Futuro a não ser

Mel doce de canela
A noz acesa na vela

A cor que fascina
O universo sentido
Ilumina

O reflexo da chama
Intensa da vela
No calor da tela

Delíquios suspensos
No limiar do vinho
No esplendor da cor


A imagem do copo
No reflexo da vela
A mulher nua
Violada na tela

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Fundação


O telhado da casa
Mantém-se intacto
Como se cada pedra rolada
Não o tivesse abalado
Ou estivesse fundeado
Na cave

Como navio ancorado
Assim me mantenho
Erecta na vida
Como se cada sonho desfeito
Estivesse ainda preso
Da minha vontade

Barco


Enlouquecida
Presságios de xaile
Nas areias da praia solta
Embatem-me nos dedos
De frio transida
Choro o meu fado
Do homem que não volta
Com seus segredos
Às ondas da minha saia
Sossegar meus medos

terça-feira, janeiro 09, 2007

Saudades do Futuro


Repetidamente
Se amaram com candura
E pecado
Nos odores libertados

Os dedos dele feitos gatos
Dela fazendo a cama
Roçaram o corpo
De joelhos unidos
Irradiando desejo
Atearam a exaltação
Dos sentidos plenos
De ensaio conseguido

Miramar


Traçados os recortes
Nevoentos na sombra
Caminhantes
Bailado de formas
De sons e cheiros
De trilhos percorridos
Isentos de normas

Descanso


A minha pena
Repousa no teu corpo
-descanso das palavras
Outras linguagens
Se libertam
Na melodia dos dedos

segunda-feira, dezembro 25, 2006

Código

Indecifrável
Como o mistério da esfinge
A luz irrompe da cinza
No seu ímpeto fosforescente
Ao incauto viajante
Assim surjo no caminho
Tantas vezes trilhado
Na ilusão do instante

A Idade dos Porquês

Porque se penetra o desejo?
A indócil
Nitidez da inocência
Pergunta
Imperdoável pecado original
Morde a garganta
A boca sente
reflexos de velas
Cintilam as mãos

Chocolate com cereja

Mordes
O que desejas
Na lama
Meu corpo chocolate
mon chéri
A tua cereja entra na minha boca
E dela sai
Como no meu sexo
Não ta dou
Recuso
Suplicas
No escuro
Todas as cores sabores
Odores
Subjugam
Jogos furtivos de tão lascivos
Os enredos incandescem
Na lareira da casa
Onde o contorno do homem
Retém o momento

De manhã o amor

A manhã assombrosamente clara
A tensão
Do fogo que me percorre
Suor
Ofegante
Do corpo
Que se move
Nos ínvios caminhos
Onde o mel escorre
Antes do sémen

Olhar cúmplice
Sinais devassados
Dádiva implacável

O peso teu corpo sobre o meu
O olhar que desviante se obliqua

Língua ávida

O núcleo do silêncio
O caos de sermos
Às vezes
Sente-se morrer
O gesto
Que da pedra irrompe
A boca sustém-na e não a diz
A mulher convoca os mortos
Nas encruzilhadas

O Poema

A impaciência serena do poema
Destino-mar
Recebe

As sílabas
Conjugam-se
Despidas
Num dilema
Lascivas
Como num leito
Perfeito
Onde só os corpos
Se alheiam

Silêncio
Intransigente
De metáforas
Só a verdade
Não contingente
Se revela

A página
É reversível
Como o prazer.

A tinta
Negra no papel
Viola a brancura
Original
Vagabundo
O ser
Feito corcel
A galope
Beijo

E estremecida
A minha garganta
De rendas guarnecida
Aguarda o toque ameno
Dos teus lábios desabrochados
Em rosas
Em derrubes arrojados
Pela água que canta
Como o prado anseia
Eu te desejo, pleno
Volúvel
É a noite
Povoada e dispersa
A tua imagem submersa
Em aguas serenas
Lembra obscenas
Volúpias
Um sonho que se acoite
Solúvel

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Criação

Um ferro atravessa a paixão
Em minúsculas partículas
No horizonte púrpura


De verde me dispo
Sobre o teu corpo
Inerte

De barro feito homem

Um sopro
Dos meus lábios
Entrega-te a vida
E inquieto
Na tua virgindade absoluta
Acabas de nascer

Vestigios


Entre as ruínas
Algo permanece ainda
Um vago incenso
Almiscarado
Da casa pouco resta
Como um amor adiado

sexta-feira, outubro 27, 2006


Dizem-me coisas
As pedras
Quando olho para elas
E retenho nos meus olhos
A sua mensagem eterna
Antes que efémera
Eu passe

Escrevo para fugir do amor
Sombra que os poetas persegue
E se lhes antecipa
Algemando-os no seu enredo
Fingindo-se cativa

Mas o amor é rede
Canto de sereia
Vida e morte
Livre na sua teia

O meu sentir
É urgente
Em cada homem que passa
Em cada ombro onde me recolho
Sempre ausente


Quisera chegar
A porto certo
Cansada da deriva

Em lugar da baía
Encontro o obscuro
De estar viva

THE DREAM RACING TIME'S ARROW"


©1995 Richard van Hoesel


A consciência do que sou
Dói como o vazio
De um sonho
Que se preencheu
E desertou
Prenúncios de chuva
Nos horizontes
Prenhes de manchas negras

Os montes
Irradiam uma luz metálica, quase lunar

É tempo de renovar
A terra queimada
Pelo incêndio do verão

É tempo de amar
Até à absolvição
Vento
Que vem do fundo do vale
Sinto a tua força
O teu poder intenso

Queres-me?

Tomas as árvores
Como se cada uma fosse território teu
Derivas nas arestas das casas
Outono anunciando

Queres-me?

Vem ter comigo
E leva-me também
Fêmea possuída
Investida de alento

Independência

Sempre aquela
Que se deseja
E não se tem
Sempre aquela
Que se aspira
E não se doma
Sempre aquela
Que se ama
E só a si pertence

Meus Olhos


Meus olhos
Caiados de verde
Doem de ver
Enamorados de te ter
Saudosos de te perder

segunda-feira, outubro 16, 2006


Na quarta-feira, dia 25 de Outubro, no Púcaros bar, em frente à Alfândega do Porto, nas Arcadas haverá uma apresentação do meu livro, que resultou do que escrevi neste blog e que contém, ainda, outros textos novos. A entrada é livre e vou decalamar alguns. Estão convidados

sexta-feira, outubro 13, 2006


o rosto dele mergulha-lhe na sofreguidão dos seios.
Sente-o primeiro, com o seu cabelo curto de menino, como se revivesse gestos antigos de ajeitar bocas, de indicar o caminho.
Depois aspira-lhe o perfume , o cheiro de que dele faz homem e nela desejo…
A pele, o corpo, o olhar que não se desvia, como se tudo aquilo fosse tão cristalino como o puro acto de nascer e abrir os olhos de espanto perante o mundo recém descoberto de se quererem, de se amarem, naquele quarto feito de amores interditos, agora seus, com os dedos dele a percorrerem os cabelos dela, a enovelarem-lhe os caracóis no rosto, o verde de encontro ao mel, a boca de encontro ao sexo.

Noite...e me sinto assim
entrecortada por soluços descontrolados
vindos de uma alma qualquer

Quando alguém chora em mim
não sei se é para verter
a tristeza de se ser
caminho sem rumo nem fim
a passos desolados

domingo, julho 30, 2006


Não ter
Um rosto
Para dar ao amor
Urge na folha
Ofusca de branco
Dói no ardor
Na mente
Busca o enquadramento
A palavra certa
Que não sai
Mas que se sente
Urgente

Uma tensão
Um excesso
Percorre-me as veias
Os tendões
Os músculos

Como se,
Prestes,o começo,
Livre de teias
E de pressões
Explodisse em crepúsculos

sexta-feira, julho 28, 2006

Olhar


Dilatam-se
As pupilas
Dos teus olhos
Metáfora azul
Do teu ser
Expansão
Fortuita
Do teu desejo

domingo, julho 23, 2006

Saudade


Para além da carícia
A melancolia persiste
Como se em cada delícia
Que existe
Ficasse uma gota na flor
Que de manhã acorda
Triste
Amor que se recorda
E já não existe

segunda-feira, julho 17, 2006

Calor


Carne
Desdobrada
Nos lençóis brancos
Suada
Nos corpos
Que se buscam
Que se completam
Com veias por dentro

sábado, julho 15, 2006

Liberdade


Antes ser aquela
Que atravessa o rio
Unindo as margens
E conjuga opostos

Antes sentir o vento
Soltos os cabelos
Do que ter algemas no corpo
E cadeias na alma

Antes partir
Sem rumo definido
Do que ficar
No porto negociado

terça-feira, julho 11, 2006


Entre quatro paredes
Se inventam sentidos
Para as palavras

Faz parte da loucura
O soltar da pele
De encontro ao corpo.
O corpo objecto
O corpo corpo
Insano na sua busca
Incessante

segunda-feira, julho 10, 2006


Rios
Que correm tranquilos
De serenas águas
-o passar tépido da vida.

Amores
Que rumorejam
Em inquietas camas
- o correr apressado do desejo.

domingo, julho 09, 2006

Humanos


De imperfeições
Somos feitos
-restos de outro ser
Outra vida.

Num vislumbre
Podemos ser perfeitos
-reencontrada
A unidade perdida.

sexta-feira, julho 07, 2006

Platonismo


Prefiro
Sonhar-te na distância
Onde os meus dedos
Teu corpo não interrompam

(Tudo sonhei na vida
sem nunca ter desejado
tempo demais)

Por isso
Te quero
Remoto de mim

segunda-feira, junho 26, 2006

Chuvas de Junho


Descalça
Caminhei na lama
Por entre as flores
Acariciando meus dedos
Meu toque
Meus sabores.

Nua
Deixei que a chuva lavasse meu corpo
Preenchendo espaços
Meus cansaços
Meus prazeres

quinta-feira, junho 01, 2006


Meus dedos
Ai meus dedos
Que tocam meu rosto
E lhe afagam as linhas

Meus olhos
Ai meu verde
Esperança e fuga
ternura escondida