segunda-feira, outubro 15, 2007


No lento rumor do teu hálito
Apenas pressentido
Esvoaça o pássaro liberto
da matéria dos sonhos
quimeras azuis sonhando

quarta-feira, outubro 10, 2007

Discurso de água

Efémera

Pode ser a vida

Discurso de um rio

Nem sempre transparente.



As pontes

São nossos corpos

Fundidos em arco

Sobre a corrente.

sábado, outubro 06, 2007

Marca


As mãos crispam-se
Plenas de raivas não-ditas
Amordaçadas pela conveniência
Os dedos registam
Nas palavras escritas
A dor da tua ausência
Vemos tudo o que desejamos ser
No vislumbre do sonhar
Trevo seco entre as folhas do livro que não leste
Assim se destaca a permanência
Do meu olhar nas letras não escritas
Porque não as soubeste escrever

quinta-feira, setembro 27, 2007

Final


Não voltaremos a roçar nos lábios
O beijo insuspeito
Que a tarde deixava em brasa
Ainda antes do crepúsculo

Não voltaremos a olhar nos olhos
O dizer-te amor
Que o tempo adivinhou
Na medida que não conteve

Não voltaremos a sonhar
O sono completo
Que os amantes conhecem
Entrelaçados de branco

quinta-feira, setembro 20, 2007


musgo

escorrendo água em regatos

assim os meus olhos

choram a ausência

da paixão que eu inventei

mas não escrevi

segunda-feira, setembro 17, 2007

domingo, setembro 09, 2007

quarta-feira, setembro 05, 2007

Seminova


A noite fez surgir sóis nos teus dedos lunares
E de nocturna se violentou em apolínea:

- a tua língua incendiando
Brasas expectantes
Das sendas abertas pelo teus dedos
Sulcando os meus seios:

-desejos escaldantes
Anteprelúdios de galáxia

terça-feira, setembro 04, 2007

Poema portátil

O monitor na frente dos olhos
O poema urgente na ponta dos dedos
A raiva que não desvenda segredos
O mar que esconde escolhos
De nada adianta papel ou monitor
Teclado ou folha
Se a alma se não dispõe a denunciar-se
Livre na sua escolha
De desnudar-se
Em dor ou amor

sábado, agosto 25, 2007

Ribeira do Porto


Depois de o calor ofegar o corpo
E alongar os gatos nos beirais
Chove na Ribeira do Porto
A água escorre do Cubo
Cinzento escuro reflexo
Desce pelos rostos e cabelos
E faz ecoar as gaivotas
E o rio atravessa a ponte
Espelhando uma nuvem ou outra

Milheirais


De dedos se enrolam os cabelos
Moldura do rosto que se desenha
De verde se trocam olhares
Campos de milho suspirando pela água
Que corre nos sulcos molhados dos pés

terça-feira, julho 24, 2007


Em acordes
fitas de seda
E cetins coleantes
O corpo toca prelúdios

Ofereço-to enquanto poema
Piano de cauda
Para que lhe decifres os contornos
Espraiados no leito
Em que te acolho

segunda-feira, julho 09, 2007

Pilhagem


Miro-te
Da vertigem
Ave rapina
Sinuo-te o trajecto

A pique
Sobre ti
Implacável
Na nitidez da minha fome

Farejo no desfiladeiro
O cheiro acre e crespo
Das tuas pernas em repouso
Incautas e crédulas
Na antecipação predatória
Da pilhagem

quarta-feira, julho 04, 2007

Jantar a dois

Que me tome o homem
Que me olhe nos olhos
E mos cerre de prazer
Que me deite e me acenda
Com golpes de brasa
Na lareira do recolher

Que me derrube o homem
Que saiba que sou de comer
E o faça sem pudor
Passo a passo
Com dedos ou talher
Na toalha dum abraço

Frutos Proibidos


Cerejas
Vertendo dedos de chocolate
Avidamente procuram
O cerne que as gera
Languidamente
Se demoram
Na expectativa.

Rubras
Túrgidas
Como as frutas húmidas
Que se abrem
Ao gume da faca
Violenta e eficaz
Que, finalmente, as devora.

terça-feira, junho 12, 2007

Cumplicidade


O encontro
Acontece nos olhos que se procuram
E se reconhecem intemporais e pares
Eles sabem
Como os amantes incompreendidos
Que basta um cigarro no bolso
para sempre se conjugarem

De novo...a esperança


Sempre que um sonho cresce
Abundante nos olhos
E se derrama por dentro
Como um fruto intenso
Prestes a explodir
A solidão irrompe
Excessiva na sua irónica sombra

Trópico


a atmosfera imóvel
condensa o tempo húmido
as pálpebras ensaiam um movimento tépido
os dedos imóveis na sombra
e os lábios entreabertos transpiram a sede
do sal suor que se deseja

sexta-feira, maio 25, 2007

Música

Choque de azul
Contra o suor da pele
Na noite desacordados
Devassados
Contratempo com tempo
De acordes combinados

Um dedo
No segredo
-esboço de beijo;

Um poro
Aberto na pele
-pescoço ensejo;

Um fruto fluido
Escorrendo
- boca desejo.