Sou poetisa do Porto e o Porto é a minha cidade. Os textos aqui recolhidos retratam vários sentires e dizeres em tempos e espaços. Alguns encontram-se publicados.
Uma linha estendida ao comprido na caneta recta Estatelada entre o projecto e a execução Negra de vontade não angulou arcos Nem torneou contornos Nem tão pouco se demarcou do fundo
As mãos crispam-se Plenas de raivas não-ditas Amordaçadas pela conveniência Os dedos registam Nas palavras escritas A dor da tua ausência Vemos tudo o que desejamos ser No vislumbre do sonhar Trevo seco entre as folhas do livro que não leste Assim se destaca a permanência Do meu olhar nas letras não escritas Porque não as soubeste escrever
O monitor na frente dos olhos O poema urgente na ponta dos dedos A raiva que não desvenda segredos O mar que esconde escolhos De nada adianta papel ou monitor Teclado ou folha Se a alma se não dispõe a denunciar-se Livre na sua escolha De desnudar-se Em dor ou amor
Depois de o calor ofegar o corpo E alongar os gatos nos beirais Chove na Ribeira do Porto A água escorre do Cubo Cinzento escuro reflexo Desce pelos rostos e cabelos E faz ecoar as gaivotas E o rio atravessa a ponte Espelhando uma nuvem ou outra
De dedos se enrolam os cabelos Moldura do rosto que se desenha De verde se trocam olhares Campos de milho suspirando pela água Que corre nos sulcos molhados dos pés