segunda-feira, março 19, 2007


Num crepúsculo lunar

Irradiando seus sóis

O poema vem





Repentino

Sopro

Urgente



O poema vem

Irradiando seus sóis

Num crepúsculo lunar


Quero-te ausente e sereno

Tudo sonhei na vida
sem nunca ter desejado
tempo demais

Fica longe
onde os meus dedos
Não interrompam teu corpo

Absurda

É a hora

Quando

Presos no tempo

A aguardamos

domingo, março 11, 2007

A verdade das rosas


Quisera outrora no papel

de alguma forma vagamente lírica

com rosas dizer amor


o homem que amei

de alguma forma ligeiramente sentimental

não era de rosas autênticas

nem mesmo daquelas de fugazes odores

que se compram belas e logo se desfazem

ou se oferecem iconicamente

nas janelas dos computadores

Desde então suspendi a pena

para que o artificial não me enchesse do tédio

medianamente médio

das coisas vulgares

sexta-feira, março 09, 2007

Regresso


Com o teu beijo
Reacende
A chama
Aquela que tu sabes
Estar sempre na asa da cinza
Purpúrea

Se eu dia eu voltar
Na minha loucura
Natural
Aquela que tu sabes
Saber a mim
Acolhe-me com
O fogo dos calores
Adormecidos
Não esquecidos

O vidro na vela
O espelho da tela


O reflexo rubro
Da ponta dos dedos
Segredos
Líquidos

A imagem do copo
No reflexo da tela


A voz do sangue
O seio que acalenta
Fremente de ter
O dia de hoje
Futuro a não ser

Mel doce de canela
A noz acesa na vela

A cor que fascina
O universo sentido
Ilumina

O reflexo da chama
Intensa da vela
No calor da tela

Delíquios suspensos
No limiar do vinho
No esplendor da cor


A imagem do copo
No reflexo da vela
A mulher nua
Violada na tela

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Fundação


O telhado da casa
Mantém-se intacto
Como se cada pedra rolada
Não o tivesse abalado
Ou estivesse fundeado
Na cave

Como navio ancorado
Assim me mantenho
Erecta na vida
Como se cada sonho desfeito
Estivesse ainda preso
Da minha vontade

Barco


Enlouquecida
Presságios de xaile
Nas areias da praia solta
Embatem-me nos dedos
De frio transida
Choro o meu fado
Do homem que não volta
Com seus segredos
Às ondas da minha saia
Sossegar meus medos

terça-feira, janeiro 09, 2007

Saudades do Futuro


Repetidamente
Se amaram com candura
E pecado
Nos odores libertados

Os dedos dele feitos gatos
Dela fazendo a cama
Roçaram o corpo
De joelhos unidos
Irradiando desejo
Atearam a exaltação
Dos sentidos plenos
De ensaio conseguido

Miramar


Traçados os recortes
Nevoentos na sombra
Caminhantes
Bailado de formas
De sons e cheiros
De trilhos percorridos
Isentos de normas

Descanso


A minha pena
Repousa no teu corpo
-descanso das palavras
Outras linguagens
Se libertam
Na melodia dos dedos

segunda-feira, dezembro 25, 2006

Código

Indecifrável
Como o mistério da esfinge
A luz irrompe da cinza
No seu ímpeto fosforescente
Ao incauto viajante
Assim surjo no caminho
Tantas vezes trilhado
Na ilusão do instante

A Idade dos Porquês

Porque se penetra o desejo?
A indócil
Nitidez da inocência
Pergunta
Imperdoável pecado original
Morde a garganta
A boca sente
reflexos de velas
Cintilam as mãos

Chocolate com cereja

Mordes
O que desejas
Na lama
Meu corpo chocolate
mon chéri
A tua cereja entra na minha boca
E dela sai
Como no meu sexo
Não ta dou
Recuso
Suplicas
No escuro
Todas as cores sabores
Odores
Subjugam
Jogos furtivos de tão lascivos
Os enredos incandescem
Na lareira da casa
Onde o contorno do homem
Retém o momento

De manhã o amor

A manhã assombrosamente clara
A tensão
Do fogo que me percorre
Suor
Ofegante
Do corpo
Que se move
Nos ínvios caminhos
Onde o mel escorre
Antes do sémen

Olhar cúmplice
Sinais devassados
Dádiva implacável

O peso teu corpo sobre o meu
O olhar que desviante se obliqua

Língua ávida

O núcleo do silêncio
O caos de sermos
Às vezes
Sente-se morrer
O gesto
Que da pedra irrompe
A boca sustém-na e não a diz
A mulher convoca os mortos
Nas encruzilhadas

O Poema

A impaciência serena do poema
Destino-mar
Recebe

As sílabas
Conjugam-se
Despidas
Num dilema
Lascivas
Como num leito
Perfeito
Onde só os corpos
Se alheiam

Silêncio
Intransigente
De metáforas
Só a verdade
Não contingente
Se revela

A página
É reversível
Como o prazer.

A tinta
Negra no papel
Viola a brancura
Original
Vagabundo
O ser
Feito corcel
A galope
Beijo

E estremecida
A minha garganta
De rendas guarnecida
Aguarda o toque ameno
Dos teus lábios desabrochados
Em rosas
Em derrubes arrojados
Pela água que canta
Como o prado anseia
Eu te desejo, pleno
Volúvel
É a noite
Povoada e dispersa
A tua imagem submersa
Em aguas serenas
Lembra obscenas
Volúpias
Um sonho que se acoite
Solúvel

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Criação

Um ferro atravessa a paixão
Em minúsculas partículas
No horizonte púrpura


De verde me dispo
Sobre o teu corpo
Inerte

De barro feito homem

Um sopro
Dos meus lábios
Entrega-te a vida
E inquieto
Na tua virgindade absoluta
Acabas de nascer

Vestigios


Entre as ruínas
Algo permanece ainda
Um vago incenso
Almiscarado
Da casa pouco resta
Como um amor adiado